Como Diretor de Planejamento do CIST, tive a responsabilidade de mediar o segundo painel do workshop na SURA, dedicado à Reforma Tributária no transporte brasileiro. Ao lado de Marcelo Marques Júnior, Reinaldo Lima e Marina Lima, conduzi uma conversa que rapidamente ultrapassou os limites de uma discussão apenas tributária setorial.
Minha percepção, ao longo da mediação, foi clara: estamos diante de uma mudança que alcança estratégia, operação, caixa, contratos, tecnologia e competitividade das empresas brasileiras.
Por isso, procurei provocar o painel para além da norma, trazendo as perguntas que empresários, transportadores e autônomos precisarão enfrentar nos próximos meses com urgência.
A Reforma Tributária já deixou de ser um tema futuro e começa a exigir decisões concretas de TRCs, TACs, embarcadores, fornecedores, contadores e sistemas empresariais.
O período crítico ainda está à frente, e por isso considero que o melhor momento para preparar cenários, processos e responsabilidades seja agora nas empresas.
Durante a mediação, procurei trazer a discussão para o terreno da decisão empresarial, porque a mudança tributária não ficará restrita ao departamento fiscal das empresas.
Ela alcançará preço, margem, crédito, fornecedor, capital de giro, contratos, sistemas, cadastros e escolhas comerciais que hoje ainda parecem separadas dentro de muitas organizações brasileiras.
Quando uma empresa escolhe um fornecedor, por exemplo, poderá precisar avaliar não apenas preço e prazo, mas também o crédito tributário associado àquela operação realizada.
Isso muda relações comerciais consolidadas, altera critérios de contratação e pode afetar a posição econômica de pequenos transportadores e TACs dentro das cadeias produtivas nacionais.
Foi justamente esse tipo de consequência que busquei colocar no centro do debate, porque decisões operacionais aparentemente simples poderão gerar efeitos estratégicos muito relevantes amanhã.
Para mim, esse é um tema de governança: compreender antes quem ganha, quem perde, quem assume o risco e quem finalmente pagará pela decisão tomada.
Um dos pontos que considerei mais sensíveis durante o painel está nos TACs, porque muitos ainda operam com estrutura tecnológica, contábil e financeira bastante limitada.
É simples discutir documentos, créditos e novas obrigações dentro de empresas estruturadas, com especialistas disponíveis, sistemas atualizados, conectividade permanente e equipes dedicadas ao projeto tributário.
A realidade do transporte, porém, inclui o autônomo distante dos grandes centros, trabalhando na estrada, usando equipamentos simples e tentando compreender regras que seguem mudando.
Esse profissional não está fora da Reforma Tributária. Ele integra a cadeia da empresa que dependerá da documentação correta para preservar seus créditos tributários futuros.
Se essa adaptação não for conduzida com antecedência, podemos criar dificuldades de contratação e ampliar a pressão justamente sobre quem possui menor capacidade financeira prévia.
Vejo aqui uma responsabilidade coletiva para entidades, transportadoras, embarcadores, contadores e empresas de tecnologia ajudarem a reduzir essa distância antes que ela produza exclusão econômica.
Outro ponto que coloquei em discussão foi o fluxo de caixa, porque a Reforma Tributária também mexerá em hábitos financeiros consolidados durante décadas pelas empresas.
O split payment é relevante porque, quando avançar sua implementação, mudará o momento em que parte do recurso deixa de permanecer disponível no caixa empresarial.
Para algumas organizações, essa mudança será administrável; para outras, poderá exigir revisão do capital de giro, renegociação e novos critérios para sustentar a operação diária.
Por isso, não considero suficiente perguntar a alíquota. Precisamos entender como o dinheiro circulará, quando surgirá o crédito e qual caixa sustentará a transição tributária.
Essa conversa precisa envolver financeiro, tesouraria, planejamento, comercial, tecnologia e contratos, porque o impacto tributário atravessará áreas que muitas empresas ainda administram de forma isolada.
Quando uma mudança atinge várias áreas ao mesmo tempo, tratá-la como assunto exclusivamente fiscal pode criar uma sensação de controle onde ainda existem vulnerabilidades importantes.
Durante o painel, me chamou atenção o relato sobre testes realizados em ambiente paralelo, envolvendo TMS, fornecedores e simulações antes da entrada definitiva das regras.
Como mediador e profissional de planejamento, considero esse comportamento essencial: testar cenários antes que o cenário real imponha condições que já não possam ser corrigidas.
Gestão de riscos não significa conhecer todas as respostas. Significa identificar perguntas, trabalhar hipóteses, medir impactos e acompanhar de perto aquilo que permanece indefinido regulatoriamente.
Empresas que aguardarem as definições para somente depois revisar sistemas, contratos, fornecedores e cadastros podem descobrir que o tempo disponível para reagir ficou muito pequeno.
Planejar não é tentar adivinhar o que o governo fará. É preparar a organização para continuar funcionando quando as decisões regulatórias produzirem efeitos concretos internamente.
Essa capacidade de adaptação poderá separar as empresas que atravessarão a transição com controle daquelas que passarão os próximos anos reagindo aos problemas conforme aparecerem.
Outro ponto que fiz questão de reforçar durante a mediação foi a responsabilidade empresarial, porque especialistas podem orientar, mas não substituem quem decide pela organização.
O contador orienta, o advogado orienta, a empresa de tecnologia implementa e o sistema executa, mas a consequência econômica e jurídica continua pertencendo ao CNPJ. Isso não reduz a importância desses profissionais.
Ao contrário, aumenta a necessidade de integração entre conhecimentos que foram tratados em departamentos separados dentro das empresas.
A Reforma Tributária exige essa visão conjunta porque uma decisão fiscal poderá alterar caixa, preço, contrato, fornecedor, operação, crédito e competitividade simultaneamente dentro da organização.
Como conselheiro, eu me preocuparia menos com apresentações dizendo que o projeto está andando e mais com evidências sobre quais riscos já foram identificados internamente.
Também perguntaria quais cenários foram simulados, quem responde por cada decisão e quais impactos financeiros ainda permanecem sem uma estimativa confiável para orientar a gestão.
Existe a tentação de acreditar que prorrogação, mudança política ou nova regulamentação poderá afastar parte das dificuldades previstas para os próximos anos no setor brasileiro.
Considero arriscado construir planejamento sobre essa expectativa, porque uma organização preparada para a mudança também estará melhor posicionada caso algum prazo oficial seja posteriormente alterado.
Preparar cedo raramente representa desperdício quando o processo envolve sistemas, cadastros, contratos, fornecedores, pessoas e decisões que precisam ser testadas antes de entrar em produção.
Preparar tarde, por outro lado, costuma custar caro, especialmente no transporte, onde uma falha documental, financeira ou operacional pode interromper viagens e comprometer margens rapidamente.
TRCs e TACs possuem estruturas diferentes, mas participam da mesma cadeia econômica, e qualquer fragilidade em um elo tende a produzir consequências nos demais participantes.
Por isso, o momento pede menos especulação sobre adiamentos e trabalho para compreender impactos, construir cenários e preparar decisões responsáveis desde agora dentro das empresas.
Saí do painel ainda mais convencido de que a Reforma Tributária será um grande teste de gestão para o transporte rodoviário brasileiro nos próximos anos. Não necessariamente porque seus efeitos serão negativos, mas porque a transição exigirá capacidade de aprender, revisar decisões e ajustar processos enquanto a operação continua acontecendo.
Como Diretor de Planejamento do CIST e mediador, vejo nossa responsabilidade em aproximar legislação, operação, tecnologia, finanças e realidade empresarial de maneira prática e acessível.
O setor precisa conversar antes que os problemas apareçam, compartilhar experiências, levar dúvidas aos especialistas e transformar informação técnica em capacidade de decisão empresarial responsável.
Os próximos anos serão exigentes para TRCs e TACs, mas poderão fortalecer aqueles que tratarem essa transição como tema estratégico e não como obrigação fiscal.
Minha conclusão é simples:
quem compreender antes as consequências
terá alternativas para decidir; quem esperar
demais poderá descobrir o risco quando
estiver pagando por ele.
Quando a Regra Muda, o Risco Também Muda
Nesta quarta feita P.P. no auditório da SURA, acompanhei o primeiro painel sobre RCV e depois coordenei o debate sobre Reforma Tributária, TRC e TAC no CIST realizado.
Saí do encontro menos preocupado em separar os temas e mais interessado naquilo que ambos revelaram sobre risco, decisão, responsabilidade e governança empresarial naquele momento.
Seguro, tributação, sistemas, contratos, fornecedores e caixa pareciam assuntos distintos, mas todos apontavam para uma mesma pergunta que considero central na gestão corporativa brasileira de hoje.
O que acontece quando a regra muda, o ambiente muda, mas a empresa continua tomando decisões com a mesma lógica que funcionava até ontem normalmente?
Como conselheiro consultivo em riscos corporativos, vejo esse tipo de situação como sinal clássico de exposição crescente, muitas vezes escondida por rotinas aparentemente controladas internamente.
E esse foi, para mim, o principal aprendizado do workshop: procedimentos podem continuar funcionando enquanto o risco real já mudou silenciosamente dentro da organização inteira.
No primeiro painel, essa diferença apareceu quando discutimos averbação, certificados, clausulados e a percepção de cobertura que o transportador pode construir ao longo do processo.
Uma chancela emitida pelo sistema pode transmitir sensação de segurança, embora ainda existam condições contratuais capazes de alterar profundamente aquilo que será efetivamente indenizado depois.
Para quem está na operação, é compreensível associar processo concluído a risco resolvido, porque sistemas, documentos e confirmações costumam representar controle dentro da rotina empresarial.
Mas o sinistro costuma revelar aquilo que o procedimento não mostrou: limites, exclusões, informações incompletas, responsabilidades compartilhadas e custos que alguém precisará assumir financeiramente inevitavelmente.
É nesse ponto que aplico uma pergunta simples em Conselhos: o controle existe apenas no processo, ou realmente reduz a consequência econômica quando algo falha?
Ter procedimento, registro, certificado ou sistema funcionando é importante, porém nenhum desses elementos substitui a compreensão sobre quem absorverá a perda quando o evento ocorrer.
No segundo painel, que tive a oportunidade de coordenar, o mesmo raciocínio apareceu sob outra forma, agora relacionado diretamente à Reforma Tributária e suas consequências.
Na abertura, usei uma comparação simples: durante muitos anos aprendemos determinado jogo tributário, com regras complexas, distorções conhecidas e comportamentos incorporados pelas empresas brasileiras hoje.
Agora o tabuleiro mudou, e continuar jogando com a lógica anterior pode transformar uma aparente adaptação fiscal em problema financeiro, operacional e estratégico bastante relevante.
A reforma alcança preço, margem, crédito, fornecedores, contratos, fluxo de caixa, tecnologia, compras, vendas e modelos de contratação dentro de uma mesma cadeia econômica nacional.
Por isso, considero perigoso tratá-la apenas como tarefa da área fiscal, porque seus efeitos atravessam decisões que pertencem à direção e também aos Conselhos empresariais.
Uma escolha de fornecedor, por exemplo, poderá deixar de ser apenas comercial e passar a produzir consequência tributária, financeira e competitiva muito diferente da realidade.
O caso dos TACs torna essa transição ainda mais sensível, porque muitos trabalham com estrutura tecnológica, financeira e contábil muito diferente daquela das grandes transportadoras.
É fácil discutir novas obrigações em ambientes estruturados, com ERP atualizado, especialistas disponíveis e conectividade permanente, mas essa não representa a realidade operacional do setor.
Há transportadores autônomos trabalhando longe dos grandes centros, utilizando equipamentos simples e tentando compreender exigências que ainda passam por ajustes, interpretações e regulamentações sucessivas hoje.
Eles fazem parte da mesma cadeia das empresas que dependerão de documentos corretos, informações consistentes e créditos tributários adequados para preservar margem e competitividade futura.
Se essa adaptação não acontecer com antecedência, poderemos criar dificuldades de contratação, aumentar assimetrias e pressionar justamente quem possui menos estrutura para absorver mudanças profundas.
Também discutimos o fluxo de caixa, especialmente porque o split payment poderá alterar uma dinâmica financeira que sustentou hábitos empresariais durante muitos anos no Brasil.
Outro ponto importante foi o relato sobre testes em ambiente paralelo, envolvendo TMS, fornecedores e simulações antes da entrada definitiva das novas regras tributárias previstas.
Para mim, isso representa gestão de riscos na prática: não esperar certeza plena, mas construir cenários, testar hipóteses e entender impactos antes do resultado aparecer.
Planejamento não é adivinhar o que acontecerá.
É preparar a organização para continuar funcionando quando diferentes possibilidades se transformarem em decisões concretas dentro do negócio.
Também reforcei durante o painel algo que considero essencial: especialistas orientam, fornecedores apoiam, sistemas executam, mas a responsabilidade pela decisão permanece sempre dentro da empresa.
O contador orienta, o advogado orienta, o profissional de tecnologia orienta, porém nenhum deles substitui a responsabilidade de quem administra, decide e responde pelo CNPJ.
Essa distinção é fundamental para Conselhos, porque delegar execução é necessário, enquanto delegar responsabilidade sem compreender consequências pode criar riscos silenciosos e difíceis de perceber.
Por isso, acredito que a Reforma Tributária precisa chegar aos Conselhos como discussão estratégica, e não apenas como informe técnico preparado pelas áreas fiscais internas.
Precisamos perguntar como mudam margem, caixa, fornecedores, contratos, sistemas, clientes e capacidade operacional, além de identificar quais decisões não podem continuar sendo adiadas agora internamente.
Não teremos todas as respostas, e isso é natural em uma transição dessa dimensão, com regulamentações, interpretações e aprendizados acontecendo enquanto empresas seguem operando diariamente.
O problema não está em desconhecer parte do futuro, mas usar essa incerteza como justificativa para adiar decisões que já poderiam estar sendo preparadas hoje.
No seguro, podemos descobrir uma cobertura insuficiente no sinistro; na tributação, algumas empresas descobrirão sua exposição quando o impacto finalmente aparecer diretamente no caixa empresarial.
Governança serve justamente para antecipar essa conversa, porque risco muitas vezes nasce não daquilo que ignoramos, mas daquilo que conhecemos e ainda evitamos enfrentar conscientemente.